Odeio aquele deslumbramento típico de brasileiro que acha que tudo que vem de fora sensacional. Nós temos artistas, galerias e museus incríveis! Esta semana entrevistei aqui em Londres Hans Olbrist, o curador da Serpentine Gallery. Ele foi eleito pela New York Review como a pessoa mais importante das artes e ele confirmou isso. É encantado pelo trabalho da carioca Lygia Pape (1927-2004), a escultura, gravadora e cineasta, contemporânea de de Hélio Oiticica (1937-1980) e Lygia Clark (1920-1988). Olbrist conhece com detalhe o trabalho de curadoria de Walter Zanini, nas Bienais de São Paulo. Para mim, o que diferencia, e as vezes distancia, o Brasil de lugares como Reino Unido, pelo menos em termos de arte, é história e educação.
Nesta semana, a BBC 2 lançou um reality show chamado “School of Saatchi”. Esqueça o “Big Brother” e seus pares, trata-se de uma competição de arte televisionada, que intercala fascículos de aula de história, e supervisionada por Charles Saatchi (escrevi um perfil dele na Serafina que está hoje nas bancas). Ele é o galerista e colecionador de arte responsável por descobrir gente como Damien Hirst, Tracey Emin e Jeff Koons. Reuniu todos eles na exibição Sensation (1997) e assim fundou o grupo chamada de Young British Arstist, os YBA’s.
Dentre as milhares de inscrições, sobraram 12 participantes. Esses puderam apresentar seus trabalhos para uma banca formada pela artista Tracey Emin, o colecionador de arte (conhecido como o Saatchi do Norte), Frank Cohen, a curadora do Barbican Centre Kate Bush e, o crítico mais conceituado de arte contemporânea do Reino Unido, Mattew Collings.
Um a um, os candidatos tinham dois minutos para apresentar seus trabalhos e ao terminar eram questionados: “Por que você acha que isso é arte?”. Um dos pretendentes a pupilo de Saatchi amassou duas folhas de papel, dois e-mails impressos, colocou uma ao lado da outra e disse: “Isso representa a nossa comunicação hoje”. Foi desclassificado e saiu aos berros: “Vou encontrar alguém para fazer a minha cama!” Ele estava se referindo a instalação de Tracey, “My Bed”, que a revelou para a Saatchi e a colocou na lista curta do Tunner Prize, o principal prêmio de arte do país. Tá, a arte era meia-boca mesmo, mas o protesto foi ótimo.
Seis candidatos foram selecionados. Entre eles um paquistanês, que faz vídeo instalações questionando sua identidade cultural, uma japonesa que também trabalha com vídeo e quatro ingleses. Entre eles uma menina que fez os olhos de Tracey brilharem. Ela pendurou um apito num gancho e disse que havia ali conotação sexual. Nesse momento, entra um vídeo sobre Marcel Duchamp (1887-1968), um dos precursores da arte conceitual e o pioneiro na idéia de “ready made”. “Ela não criou uma peça, ele selecionou um objeto, retirando a função dele e colocou no museu”, explica a curadora Kate Bush.

Ben Lowe nunca frequentou escola de arte e trabalha por encomenda (faz quadro para combinar com sofá), o que irrita profundamente Tracey Emin
Ainda no primeiro epsódio, houve uma prova realizada a pedido de Saatchi. Uma mulher na casa dos 40 e tantos anos entrou no estúdio de roupão. Tirou e deitou nua em uma espreguiçadeira. Outro vídeo entra para contar a história do desenho vivo na história da arte. Além de deixar claro o que o anfitrião do programa está buscando. Os resultados foram quase engraçados. Só dois dos seis selecionados mostraram habilidade em desenho. Apesar de todos terem encenado aquele gesto clássico de segurar a ponta do lápis, virando-o para a horizontal e vertical, tentando medir as partes do corpo da modelo para dar proporção ao desenho. Muito bom e bem divertido. Mais divertido ainda é ouvir a Tracey fazer suas análises, com um palavreado que remete automaticamente à Aracy de Almeida (“Nunca ouvi tanta merda na minha vida…” ou “Por que você não coloca esse treco no Youtube?”), enquanto a curadora Kate usa o mais inglês mais “posh e polite” da TV britânica.
Saatchi não deu o ar da graça. Apareceu apenas numa imagem formada por uma fumaça (tudo bem, o padrão BBC é altíssimo, mas essa foi punk). Dizem que ele só aparecerá no quarto e último capítulo. Nos três seguintes, os candidatos terão que cumprir tarefas, dessa vez irão criar obras diante das câmeras. O vencedor participará da exposição Newspeak: British Art Now, que será realizada em 2010 em uma das galerias do Museu Hermitage, em São Peterburgo, na Rússia. Além de ganhar um estúdio bancado por três anos por Charles Saatchi e se tornar o próximo Damien Hirst ou Tracey Emin da arte contemporânea britânica.


















A burca e os mulçumanos são tema constante de páginas de jornal e noticiários por aqui. “Sarkozi quer banir a burca na França”, “mulheres mulçumanas se recusam a mostrar o rosto na fronteira inglesa”, “a arquitetura inglesa é transformada pelos templos mulçumanos…” Sem dúvida Sarah faz um tipo de arte que retrata nosso tempo. Eu vou ficar de olho nela. Acho que essa “little dirty lady” ainda há de desvelar um bocado de coisas.