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Vi e gostei das telas de Damien Hirst

Novembro 11, 2009
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Skrull with a lemon (2008)

O homem-tubarão havia se recolhido. Damien Hirst comprou uma casota, perto de seu mega-estúdio-fazenda, em Devon. Na casinha de madeira no meio do mato, que funcionava como posto de sinaleiro de trem, ele colocou uma chaminé, uma janela, levou sua border collie Lucy e pôs-se a pintar.

Óleo sobre tela. O homem do bezerro no formol, das prateleiras de diamantes e de pílulas agora passa horas sozinho, longe do barulho dos seus quase 100 aprendizes do outro estúdio, cercado por telas e tintas. Até o blackberry dele, que ele diz ser seu novo vício, fica desligado nesses momentos. Hirst não consegue pintar menos do que 12 telas ao mesmo tempo, senão ele fica “entediado porque parece que não tem o que fazer”. Numa entrevista ao The Sunday Times ele surpreedentemente disse: “Nunca imaginei que pudesse gostar do tempo de secagem da tinta óleo. Um branco pode levar uma semana para secar, enquanto alguns azuis levam só 24 horas. Nesse espaço, você tem tempo para pensar onde quer chegar com a pintura”.

Soa como poesia. Não como declaração do cara que desde 1988, quando ainda estava no segundo ano da Goldsmiths College, organizou a Frieze e a partir dali o mundo passou a ouvir falar de vacas cortadas ao meio e cifras nunca antes atingidas quando o objeto era arte contemporânea.

As 25 telas da série No Love Lost, Blue Paintings (Sem perder o amor, Pinturas em azul) estão expostas na Wallace Collection. Ele estar ali já é um acontecimento. O museu, que fica perto da elegante Bond Street, é fruto de uma coleção de família, conhecido pelo acervo de Titian, Rembrandt (com poses clásicas de mãe e filha), e Velasques. O próprio Hirst fez uma seleção de suas pinturas favoritas no museu (fica pro próximo post).

É sensacional ficar de longe, observando senhoras, as tradicionais english roses, levarem a mão à boca, em gesto de espanto, quando se deparam com a tela preta da “Caveira flutuante”, obra que abre a exposição. Na sala anterior, elas admiravam uma louça Lemoges do século 18.

As telas são quase pretas, todas num azul muito profundo. A série de caveiras não me diz nada, apesar de já estarem vendidas para um bilionário ucraniano, Victor Pinchuk, por 50 milhões de dólares. Hirst diz que sua pintura é inspirada em Francis Bacon e Brian Swell, o deliciosamente mal humorado crítico de arte do Evening Standard, afirma que ele deveria lavar a boca com sabão antes de dizer uma coisa dessas. Eu até acho que as linhas que extrapolam o desenho de Damien se assemelham ao “Estudo depois do retrato de Velasques do Papa Inocêncio”, de Bacon.

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White roses and butterflies

Mas há dois guardiões, um contorno de corpo que observa uma floresta negra, com sombras de traços brancos delineando as árvores que são impressionantes. Lindos, escuro, estranho. A tela de despedida da sala, que tem as paredes cobertas em seda azul pastel claro e correntes pintadas da mesma cor como suporte das peças, é “White Roses and Butterflies” (Rosas brancas e borboletas). Num fundo escuro grosseiramente pintado, ele desenha um clássico vaso e flores brancas. As borboletas, pelos picos que fazem a tinta, dão a perceber que são resultado de um molde. Uma espécie de stencil, o mesmo criança usa pra copiar desenho, o mesmo que Gustav Klint usava para fazer as curvas de suas telas, o mesmo que Beatriz Milhazes usa para compor suas cores. É um assombro, mórbido, mas lindo.

No folder que apresenta a exposição, há uma frase de Hirst citando John Ruskin, um dos mais importantes críticos de arte da Europa, patrono da irmandade Pré-rafaelitas, grupo que tem como expoente John Millais, autor do clássico “Ofélia“. Hirst diz: “Gosto da idéia de arte de John Ruskin: existe uma linha inquebrável que nos liga e que retorna ao tempo das cavernas. Nós somos apenas recentes adições”. Também concordo que essa linha exista, e sem dúvida Hirst faz parte dela. Ironicamente, característica intrínseca de sua obra, ele coloca uma natureza morta, num dos lugares mais improváveis para qualquer coisa que leve a assinatura dele.

Quem passar por aqui, vale dar uma olhada, a exibição é gratuita o que é raro para exibições especiais. Quem não puder vir pessoalmente, pode dar uma passeio via Youtube. Definitivamente não é a mesma coisa, a tinta é tão fresca que ainda dá pra sentir o cheiro, mas já dá pra ter uma bela idéio do trabalho. O que vocês acham?

3 comentários

  1. aí!!!!! tem pintura razoavelmente boa no universo arte/iml do mr. hirst……e parecem ser bem legais, sir francis bacon na veia, mas tem uns elementos figurativos ( limão siciliano, vaso de flores, caveira – fazer o que né – que misturados a uns fundos e aos fios claros que sugerem estututurar algo
    (escancaradamente FrancisBacon) formam algo interessante, dem leve meio perturbador (à la bacon de novo) parece ser bonitas mesmo
    e ele tem coisa bem legais, bem arte pop (as serigrafias que copiam embalagens gigantes de remédios), a série de bolas coloridas dispostas simétricamente telas como “Valium ” e ” Gelsemine” são delicadas e até
    ingênuas perto da bizarra fauna em conserva e afins


  2. Gostei do espírito da coisa, do passeio que se dá, pelo texto, por gente grande e fascinante do mundo da arte. O vídeo no final tb contribui para que o leitor saiba mais. Nunca tinha visto direito o Hirst, e fui com a cara dele, um típico lad londrino dos anos 90.
    (Belos óculos!)
    Agora, numa avaliação amadora como só pode ser a minha no que diz respeito à arte, tendo a concordar com o crítico do Standard. Me parece haver uma diferença enorme entre Bacon e Hirst, com todo o respeito.


    • Não sei o que significa Lad, confesso que dei um google. Mas acho, sim, que a pintura do Hirst tem muito de Bacon. Em um quadro de 1954, chamado “Figure with meat, o Papa Inocêncio aparece sentado na frente de uma vaca cortada ao meio. Acho que o Hirst leu isso (ou releu) nos anos 2000. E vá ver e depois me diga se vc não sentiu frio na espinha diante de um dos guardiões da floresta negra.
      bj



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