Dê uma olhada nessa imagem.
Um pouco mais de perto.
Mais perto.
Ops… É isso aí, quando chegamos perto (é preciso aproximar o rosto da tela na galeria também), a imagem da burca, o véu usado por mulheres mulçumanas para preservá-las dos olhos libidinosos do mundo, é formada por centenas de imagens retiradas de revistas pornô, daquelas bem baratinhas. Ao mesmo tempo, Rashid Rana, um paquistanês de 42 anos, diz querer com a obra “Veil I, II & III” questionar a “objetificação” da mulher pela pornografia.
Rana, que mantém o ateliê na sua cidade natal, Lahore, a segunda mais importante do Paquistão, considerada a capital cultural do país, diz dessa maneira querer fazer o observador desconstruir o conceito pré-estabelecido como verdade, tenha o espectador nascido no Ocidente ou Oriente.
Rana, que não usa turbante ou tem o terceiro olho pintado, faz parte do elenco de 26 artistas de “The Empire Strikes Back: Indian Art Today”, a nova exposição da Saatchi Gallery. O nome da mostra é uma provocação ao período chamado”British Raj”, anos de dominação do exército britânico durante os anos de colonização na Índia. Depois de 1876, a união política dos dois países criou o Indian Empire. Numa tradução livre, nome da exposição seria “O Império Contra-ataca: a Arte Indiana Hoje”.
Esqueça os quadros de deusas hindus, os contornos dourados, os olhos marcado ou cores super fortes. A arte que vem daquela região do mundo é política, sexual e forte. As mulheres de burca, que mesmo depois de um ano aqui em Londres assistindo todos os dias elas cruzarem a minha frente ainda causam estranheza, é só um ponto. Estão lá as fotografias de mulheres mutiladas e o HQ sexy, chamado “Contos de Amnésia”, de Chitra Ganesh, 35. No quadrinhos, enquanto o enunciado fala da tradição, os personagens pensam e agem de maneira “ocidental”.
Na série provocação, o último andar ficou guardado para a americana Emily Prince, 25, com a instalação “Soldados e Soldadas Americanos que Morreram no Iraque e Afeganistão (sem incluir feridos, iraquianos ou afegãos)”. A instalação, que já esteve na Bienal de Veneza de 2007, traz desenhos feitos a lápis de retratos 3X4 de soldados mortos. A obra permanece inacabada e é atualizada regularmente pela artista.
Boa seleção de artistas, sem resquício de curry ou mulheres em traje de seda multicoloridos. Estive na abertura da mostra, em que uma curadora do time de Charles Saatchi passeia com os visitantes pela mostra explicando a mostra que abre com um discurso do Gandhi, no começo dos anos 30, contra as taxas sobre o sal instituída pelos ingleses, feito com ossos humanos, obra do indiano de Mumbai, Jitish Kallat, 36.
Os ingleses tomaram um susto. Confesso que também, mas fiquei puta comigo mesmo. É como se no Brasil todos os quadros e instalações tivessem como tema carnaval e futebol. Aliás, Saatchi está a procura de novos artistas brasileiros para um futura mostra. Me parece que cada vez mais contra estereótipos e chavões turísticos, as galerias de arte podem ser um excelente antídoto.




