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Quero ser Peggy Guggenheim!

Abril 15, 2010

Peggy em sua sala em Veneza, entre um mobile de Calder e um quadro de Picasso

Duas exposições, uma na Pinacoteca e outra na Estação Pinacoteca em São Paulo, há um bom tempo (sou péssima com datas) me colocaram de frente a dois artistas incríveis. Alexander Calder e Jackson Pollock. Os móbiles do Calder são impossíveis de esquecer, formas que brincam no ar, fortemente coloridas e tão suaves. Os broches que ele fez para a mulher dele… Quem deu o nome ao objeto pelos quais o americano ficou mundialmente conhecido foi o francês Marcel Duchamp (aquele da roda da bicicleta no museu), já que as peças não eram estáticas, eram “móbiles”.

E as pinceladas doentes de Pollock, impossível não sentir a angústia ou a fúria com que ele largava a mão para que a tinta jorrasse na tela. Sou capaz até de achar o Pollock bonitinho por conta disso. Brincadeira, isso também não dá.

Foram esses “caras”que me apresentaram uma mulher ainda mais ou também sensacional: Peggy Guggenheim (1898-1979). Quem me dera viver o momento que ela viveu entre as pessoas que conheceu.

Peggy poderia ser mais uma pobre menina rica por aí, mas não. Ela era inquieta e curiosa, apaixonada por coisas belas, por viver, por se apaixonar (mesmo que por alguns personagens da ficção). Filha de duas famílias riquíssimas judias, pai suíço-germânico e mãe americana. Peggy nasceu em Nova York e teve uma infância repleta de doenças que a impediram de ir a escola até os 15 anos.  Aos 14, seu pai morreu no Titanic, em 1912. Benjamin Guggenheim afundou com a amante. Em suas memórias, conta que sua mãe conseguiu um divórcio com data retroativa, para que ela fosse viúva antes do adultério (essa é das minhas!).

Antes de começar a colecionar arte, Peggy foi casada com o francês Laurence Vail (1891-1968). Conhecido como “Rei de Montparnasse”e Rei da Boemia, o escultor e poeta Dada fazia questão de acachapar Peggy, dizendo que ela não tinha talento ou conhecimento de arte como ele. Bom, claro que o casamento com o mala não durou muito. Ela teve dois filhos e se divorciou dele depois de um caso que ele teve com a ativista política Kay Boyle. Azar o dele!

A própria Peggy conta que a primera vez que viu uma pintura moderna, um quadro de Georgia O’Keeffe, o rodeou por uns dez minutos pra descobrir de que lado deveria observá-lo. Bom, o fato é que “talentosíssimo mala”surrealista “cheio de idéias”a colocou em contato com pessoas muito mais talentosas que ele e que viriam a se transformar em seus queridos aconselhadores e adorados amigos.

Foi com auxílio de Marcel Duchamp e Samuel Beckett que Peggy começou a comprar arte. A primeira aquisição foi um quadro de Vasily Kandisnky, chamado Dominant Curve, em 1938. A primeira tentativa de galeria foi em Londres, mas os anos que precediam a Segunda Guerra a fizeram perder muito dinheiro e logo depois a ocupação nazista da Europa a faz rumar para os Estados Unidos.

Peggy, com seus lhasas, ao lado de Pollock diante do primeiro mural encomendado por ela

Em Nova York, foi preciso que Piet Mondrian a convencesse do talento de Jackson Pollock. Só aos 32 anos começa, ele a receber um salário para produzir para Peggy. Casada com Max Ernest, ela começou a coleção que, na minha opinião, é uma das mais incríveis do mundo. Mark Rothko, o professor da Bauhaus Paul Klee, Ben Nicholson, Francis Bacon, muitos Picassos (que ela comprou por uma pechincha antes da guerra) fazem parte do seu acervo. Na festa de abertura da galeria museu, em 1942, chamada Art of this Century (Arte desse século) ela usou um brinco feito por Calder e outro feito or Tanguy, para demostrar imparcialidade entre abstratos e surrealistas.

Em 1947, passada a Guerra, Peggy resolve voltar para Europa. Compra um palácio (inacabado) à margem do Grande Canal em Veneza. Nessa casa de pedra branca, onde hoje há no jardim uma Wish Tree, de Yoko Ono, uma árvore onde as pessoas penduram seus desejos, eu sentie e quase chorei. Não chorei porque estava sozinha, se estivesse acompanhada talvez choraria. Mulher chorando sozinha na rua é deprimente.

Quando se abre a porta de entrada do casarão, além da vista para o canal de águas verdes, um imenso móbile de Calder continua no meio da sala, como na decoração original. Um Picasso azul (La Baignade) do lado direito e um branco cubista (L’Atelier) do lado esquerdo. No lugar onde era o quarto de Peggy, a cabeceira da cama que Calder fez pra ela continua lá, como as estatuetas de murano azul que Picasso a presenteou.

Solar: é esse o adjetivo que os venezianos usam para descrever o palácio e sua dona, Peggy

Peggy morreu aos 81 anos, em Pádua, vítima de derrame. Foi enterrada no jardim de seu palácio junto com seus adorados cachorros lhasa. Suas festas ainda são comentadas na cidade da bienal mais importante de arte. Peggy, além de ter feito a coleção mais importante de arte moderna do mundo, até a metade do século XX, era uma pessoa “solar”, como dizem os veneziados. Acolhia amigos e gostava de estar rodeada por gente interessante.

Até hoje, em sua casa, os visitantes costumam sentar-se no jardim, tomar um capuccino, uma taça de vinho e se deleitar com a paisagem, com as obras, com o trânsito de gôndolas e vaporettos do canal. Bem diferente dos apressados apreciadores, devoradores de sanduíches frios do EAT que freqüentam a Tate Modern. É… Sinto muito Tate, mas meu coração agora é veneziano.

A casa onde Peggy viveu e morreu, em Veneza, e hoje está parte (principal) de sua coleção

2 comentários

  1. sensacional mari, a peggy claro
    e esse texto também
    parabéns
    piei


  2. It was a history of a woman that love art and love itself well donne Marianne!



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