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O cachorrinho tem telefone?

Novembro 23, 2009

"The Hoerengrancht", de Ed Kienholz

Durante a Segunda Guerra, os soldados não tinham permissão para “visitar”os bordéis de Amsterdã, na Red Light Zone (Zona da Luz Vermelha). Bom, então quando eles passavam pelas vitrines onde, no lugar de roupas ou pães, vendia-se sexo o que eles faziam? Ora, compravam presentes para as mães. Oi?

Explico. Sabe aquelas pavorosas estatuetas de cachorros de porcelana? Então, elas eram a senha. Se o cachorro estava de costas para rua, a prostituta estava ocupada. Quando eles estavam com o focinho virado para os passantes, os soldados entravam, batiam continência e quando voltavam para o pelotão levavam de lembrança a estatua “de presente para mamãe”. Como os soldados não podiam ser vistos negociando em frente às vitrines, eles perguntavam para as moças pelo preço do cachorro. É bem provável que seja essa a origem daquela cantada canastra e tão kitsch quanto o cão em porcelana: “o cachorrinho tem telefone?”

Essa é apenas uma das histórias que são contadas na exposição “The Hoerengracht”, ou em inglês “Whore’s Canal” e em português “Canal das Putas”, de Ed Kienholdz (1927–1994) e Nancy Kienholz, 66. Pela primeira vez uma instalação dessa natureza toma as galerias, repleta de mestres, da sisuda National Gallery, em Londres. Por aqui, os críticos já anunciam que o evento de arte contemporânea mais importante deste ano não terá o endereço da Tate Modern ou nenhuma das elegantes galerias do Leste londrino. Há dez anos, o curador da National Gallery diz que tenta levar essa instalação para o espaço. “Acredito que Kienholz deve subverter uma coleção de séculos”, disse ao Observer. E parece que conseguiu.

Ed nasceu em 1927. Segundo Brian Swell, o reverênciado crítico do Evening Standard, é o mais negligenciado e esquecido artista da Geração Beat dos anos 50, do escritor. A turma de Jack Kerouac, autor do clássico “Pé na Estrada”, contemporâneo de escritores como Allen Ginsberg e Norman Mailer. Suas imagens são desagradáveis e sujas, como o palavreado daquela geração. Para traduzir de uma forma simplista é mais ou menos o “te amo, porra”do cinema brasileiro, há uns 20 anos. Para muitos, Ed Kienholdz é o “pai da instalação”, o homem que fez obras mais provocativas do que a “A Cama”, (My Bed) de Tracey Emin, quando ela ainda usava fraldas.

Cliente nas ruas de "The Hoerengrancht"

“The Hoerengrach” é uma instalação que começou a ser feita nos anos 80 e só ganhou espaço em um museu 15 anos depois da morte de seu autor.  Ed e Nancy (sua quinta mulher) costumavam pagar 50 florins, o equivalente a cerca de 50 reais na extinta moeda holandesa, para entrarem na casa das trabalhadoras do sexo e, além de tomá-las como modelo, reunir informações. Uma delas é a história do cachorro de porcelana.

Hoje, a prefeitura de Amsterdã luta para levar jovens designers  e bistrôs para essa área, numa tentativa de acabar com o turismo sexual e degradante da área. Sem dúvida, a Red Light Zone é hoje mais “limpinha”; por isso o que Ed e Nancy (como assistente) fizeram é um documento de época. Quem for à National Gallery terá de andar entre as modelos de fibra de vidro em tamanho real como se fossem clientes. As famosas vitrines foram encolhidas, numa espécie de efeito “Alice no país das maravilhas”, depois de comer o bolo EAT ME (me coma). Pequenas molduras enjaulam o rosto ou o sexo das moças, em uma atmosfera suja, escura e mórbida.

Brian Swell, o velhote vai achar que estou apaixonada por ele e sinto muito citá-lo novamente, mas sim foi ele que fez um ponto interessante.  Vamos a ele: a primeira grande instalação de Kienholdz foi Roxy’s, em 1961, o interior de um bordel em tamanho real. Nele, pedaços de corpos de mulheres esquartejados podiam ser tocados ou manipulados por quem o visitava. No “Canal das Putas”, como em Roxy’s, a sensação que se tem é que ele representa a expressão de um homem para quem um dia o desejo sexual era uma força esmagadora, suprema. O que o fazia abrir os olhos pela manhã e agora não é mais (quando ele estava vivo, claro). Bom ponto.

Eu sempre me encanto com obras de casais, suspiro com a história de  Charles e Ray Eames (os designer americanos), o surrealista belga Renè Magritte que passou a vida pintando sua amada Georgette e até com a pancadaria de Mallory e Mickey Knox, em Natural Born Killers, de Oliver Stone (com Tarantino despontando). Essas são histórias realmente sexies, em que as mulheres aparecem inteiras, repletas de virtudes e defeitos, física e psicologicamente. E não em pedaços, como os seios da Penélope Cruz em “Animal Agonizante”, que conta a história de um professor velho e comedor, do então impotente (na minha opinião) escritor Philip Roth, que na época lutava contra um câncer de próstata. Swell diz, e eu concordo, que Kienholdz parecia um homem impotente, como um escritor velho e cansado esporrando palavras sujas em algum conto barato.

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