
O tcheco David Cerny colocou Sadam Hussein no formol. Bom?
Sexta-feira à noite, o Channel 4 passava a viagem gastronômica de Jamie Oliver pelos Estados Unidos. Tudo ia bem, (taco em Los Angeles, burguers em NY…) eis que ele pega uma pistola e, junto com uma família da Louisiania, vai a um lago caçar o crocodilo do jantar. Não sei o que eu esperava, mas meia dúzia de tiros na cabeça do jacaré te garanto que não era. Só faltou o grito clássico dos policiais americanos: “die, mother fucker!”
Uma vez, uma amiga, durante uma viagem romântica pela serra do Rio, parou numa fazenda de trutas. O casal escolheu o peixe gordinho que saboreariam no almoço. Com uma rede o dono do trutário pegou o peixe e quando ele estava fora d’água (pau!) deu uma tremenda porrada na cabeça da truta. A violência da pancada, que fez os olhos do bicho esbulgalhar, e o barulho do porrete na cabeça da truta (pau outra vez), acabaram com o almoço. O bicho abatido ficou no prato e casal, sem clima, voltou pra São Paulo.
Na Revista da Folha, escrevi em 2007, sobre um artista porto-riquenho chamado Guillerme Vargas, conhecido como Habacuc. O rapaz tinha como instalação um cachorro, que havia sido capturado na rua, amarrado num canto da galeria à mingua. A proposta era ver o bicho morrer de fome. A dona da galeria me disse na época que o cachorro era alimentado com ração, mas como cachorros “vadios” (de rua em espanhol) não estão acostumados com aquele tipo de comida, “ele tinha emagrecido um pouco”. Sei. Sei que o barulho foi tanto que dias depois o bicho, graças a um vigia destraído, fugiu da galeria. Ufa!
Mas porque eu estou misturando tudo isso? Também não sei se as coisas se conectam, mas fui ver a Pop Life, exposição da Tate Modern sobre a qual dediquei meu primeiro post. Lá estava o famoso bezerro de 18 meses de Damien Hirst em seu tubo de formol, “The Golden Calf”. Aquilo me incomodou. De longe, eu sempre citei esse trabalho, mas dar de cara com ele é outra coisa (esse é um dos motivos pelo qual eu tão tardiamente comecei minha vida nessa blogosfera. Acho que nada substitui a vida real, mas essa é outra conversa…).
O pêlo da orelha do bezerro é tão fininho que parece que o bicho era saudável, pelo menos a saúde de cachorro se avalia pela qualidade do pêlo. Então ele foi abatido para estar ali? Me deu um incômodo semelhante ao que o crítico do Evening Standard, Brian Sewell, sentiu ao ver as esculturas espanholas do sacrifício de Cristo, do século 17, que estão na National Portrait Gallery. Esse velhinho super mal humorado diz que uma das características da boa arte é que você não pode suportá-la (ele não suporta o Damien Hirst), mas o sentido que ele diz é o da aflição e angústia.
Então eu suportei o tubarão (talvez porque ele tenha a pecha de mau), mas não suportei o bezerro (e se ele fosse um bezerro maldito? Vai saber).
Achei uma crueldade o Jamie Oliver atirar no jacaré, mas não resisto a um fígado de ganso. Defitivamente não vou pro céu. Também não tenho menor saco pra papo de vegetariano que quer salvar o planeta. Na boa, dá ir salvar outro planeta e me deixar em paz?!
Quando estive em Praga, na República Tcheca, achei um discípulo do Damien Hirst, chamado David Cerny, na galeria Dvorak Sec Contemporary. No lugar de bichos, ele colocou o Sadam Hussein no formol. Não me incomodou em nada. Deve ser meu instinto maligno.

