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A arte, a gastronomia e o bichos

Novembro 8, 2009
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O tcheco David Cerny colocou Sadam Hussein no formol. Bom?

Sexta-feira à noite, o Channel 4 passava a viagem gastronômica de Jamie Oliver pelos Estados Unidos. Tudo ia bem, (taco em Los Angeles, burguers em NY…) eis que ele pega uma pistola e, junto com uma família da Louisiania, vai a um lago caçar o crocodilo do jantar. Não sei o que eu esperava, mas meia dúzia de tiros na cabeça do jacaré te garanto que não era.  Só faltou o grito clássico dos policiais americanos: “die, mother fucker!”

Uma vez, uma amiga, durante uma viagem romântica pela serra do Rio, parou numa fazenda de trutas. O casal escolheu o peixe gordinho que saboreariam no almoço. Com uma rede o dono do trutário pegou o peixe e quando ele estava fora d’água (pau!) deu uma tremenda porrada na cabeça da truta. A violência da pancada, que fez os olhos do bicho esbulgalhar, e o barulho do porrete na cabeça da truta (pau outra vez), acabaram com o almoço. O bicho abatido ficou no prato e casal, sem clima, voltou pra São Paulo.

Na Revista da Folha, escrevi em 2007, sobre um artista porto-riquenho chamado Guillerme Vargas, conhecido como Habacuc. O rapaz tinha como instalação um cachorro, que havia sido capturado na rua, amarrado num canto da galeria à mingua. A proposta era ver o bicho morrer de fome. A dona da galeria me disse na época que o cachorro era alimentado com ração, mas como cachorros “vadios” (de rua em espanhol) não estão acostumados com aquele tipo de comida, “ele tinha emagrecido um pouco”. Sei. Sei que o barulho foi tanto que dias depois o bicho, graças a um vigia destraído, fugiu da galeria. Ufa!

Mas porque eu estou misturando tudo isso? Também não sei se as coisas se conectam, mas fui ver a Pop Life, exposição da Tate Modern sobre a qual dediquei meu primeiro post. Lá estava o famoso bezerro de 18 meses de Damien Hirst em seu tubo de formol, “The Golden Calf”. Aquilo me incomodou. De longe, eu sempre citei esse trabalho, mas dar de cara com ele é outra coisa (esse é um dos motivos pelo qual eu tão tardiamente comecei minha vida nessa blogosfera. Acho que nada substitui a vida real, mas essa é outra conversa…).

O pêlo da orelha do bezerro é tão fininho que parece que o bicho era saudável, pelo menos a saúde de cachorro se avalia pela qualidade do pêlo. Então ele foi abatido para estar ali? Me deu um incômodo semelhante ao que o crítico do Evening Standard, Brian Sewell, sentiu ao ver as esculturas espanholas do sacrifício de Cristo, do século 17, que estão na National Portrait Gallery. Esse velhinho super mal humorado diz que uma das características da boa arte é que você não pode suportá-la (ele não suporta o Damien Hirst), mas o sentido que ele diz é o da aflição e angústia.

Então eu suportei o tubarão (talvez porque ele tenha a pecha de mau), mas não suportei o bezerro (e se ele fosse um bezerro maldito? Vai saber).

Achei uma crueldade o Jamie Oliver atirar no jacaré, mas não resisto a um fígado de ganso. Defitivamente não vou pro céu. Também não tenho menor saco pra papo de vegetariano que quer salvar o planeta. Na boa, dá ir salvar outro planeta e me deixar em paz?!

Quando estive em Praga, na República Tcheca, achei um discípulo do Damien Hirst, chamado David Cerny, na galeria Dvorak Sec Contemporary. No lugar de bichos, ele colocou o Sadam Hussein no formol. Não me incomodou em nada. Deve ser meu instinto maligno.

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Deixem a foto da ninfeta em paz!

Outubro 20, 2009
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Imagem proibida de Brooke Shields em foto do The Sunday Times

Numa discussão com uma colega italiana de Florence, no curso de curadoria que faço na Central St. Martins, ela calorosamente dizia que a Tate Modern só faz exposições comercias, para ganhar muito dinheiro.

Bom, eu adoro as exposições e também não vejo mal nenhum em ganhar dinheiro, apesar de ter sido educada em colégio de freiras. Então, que ela não leia, mas fui ontem ver Pop Life – Art in a material world.

A nova exposição da Tate Modern, que tem curadoria de Jack Bankowsky, mostra o legado da Pop Art iniciada por Andy Warhol. De entrada o dono da Fábrica, como era chamado o estúdio de Warhol avisa: “O bom negócio é a melhor arte”. Acho que a minha amiga italiana reverencia artistas que morrem de tuberculose… Enfim, além de Warhol, havia Keith Haring e a reprodução da Pop Shop a loja dele em Nova York nos anos 80 (que minha amiga italiana não saiba mas eu até comprei um caderninho nela), as camisetas de Tracey Emin e Sarah Lucas, o bezerro no formol de Damien Hirst e os mangas de Takashi Murakami.

Como se não bastassem todos eles, uma foto de Brooke Shields super maquiada, nua aos 11 anos, anterior ao filme Pretty Baby, foi retirada da exposição antes da abertura. Mais barulho, mais páginas de jornal questionando se aquela imagem não era a leitura visual de Lolita, de Vladimir Nabokov. Eu acho que sim. No espaço, ficou uma foto da senhora Lagoa Azul aos 30 e ao lado um vazio demarca o espaço deixado pela foto da nifeta. Importante: Brooke hoje autorizou o uso dessa imagem na exposição e a mãe da atriz, na época da foto, também.

Duas salas depois desse vazio, uma foto de 10 de altura por cinco de largura do anus da Cicciolina e da vagina sendo, como direi, possuída por um pênis dá as boas vindas para quem entra na sala do Jeff Koons.

Made in Heaven é a série de fotos e esculturas que ele fez durante o casamento com a atriz. Glass Dildo, de 1991, mostra a moça com um dildo de vidro enquanto recebe “beijos”do marido. Vamos adiante.

O corredor seguinte é de Cosey Fanni Tutti uma ex atriz pornô italiana. No video instalação da artista ela convida um desconhecido para um sessão de sexo num hotel. Num daqueles corredores que não mais comporta a foto (a essa altura do campeonato quase lírica) de uma menina maquiada nua, há uma senhora fazendo um clássico (e sinto muito não dá pra usar eufemismo) boquete. Enquanto a italiana se esmera em sua arte, cerca de seis pessoas ao meu redor fazem cara de conteúdo para um boquete escomunal. Sinto muito, eu me esgoelei de rir.

A última sala é dedicada a Takashi Murakami, o homem que coloriu o logo da Louis Vuitton, e um filme dele em que a atriz Kirsten Dunst, a Maria Antonieta, dança com cabelos azuis. Leve, mas sexy, claro.

É bom mesmo que a florentina nem apareça na Tate até o dia 17 de dezembro, quando a Pop Art será desmontada, senão capaz que ela descubra que Pop Art hoje além de negócio é exposição e explícita. E, pelo que se viu por lá, quanto mais melhor.

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